Sábado, 26 de Novembro de 2011

Meus filhos, meus tesouros...

Chegou!

De novo, armado de bagagens, ele regressou. Vem passar o Natal e, embora carregado de trabalhos por fazer, veio mais cedo que o previsto. Tinha um motivo. Precisava de chegar mais cedo. Porquê?

Quando os filhos se juntam e decidem presentear os pais, é muito agradável.

Quando andam um ano inteiro a poupar as suas magras economias, a pensar em oferecer aos pais uma prenda de sonho, não é agradável. É... de merecerem... tudo.

Mantendo durante um ano os seus propósitos, completamente em segredo, preparando tudo de forma completamente discreta, irredutíveis mesmo quando se lhes perguntava o que faziam ao dinheiro que se lhes dava, juntando todas as suas economias, privando-se eles de muitas estoinices próprias das idades deles, deixam-nos agora sem palavras, admirados com o seu acto,  enebriados com a sua coragem, ainda mais admiradores das pessoas que criámos. 

Quando digo meus filhos, meus tesouros, se já tinha de há muito essa admiração, desta vez ultrapassaram tudo o que eu esperava deles. Habituados que estamos a ser presenteados, não nos admirámos quando, após a chegada, o meu filho mais velho começou a tirar de dentro da bagagem diversas lembranças. Primeiro as mais pequenas. Depois, começaram a sair as maiores. Há muito que os velhos discos de vinil, ali guardados a um canto, recordações de tempos idos e anteriores a eles, não eram ouvidos por não existir... um gira-discos. E, de dentro da bagagem, trás-nos... um gira-discos. Entreolhámo-nos, incrédulos, perante aquele objecto que já faz parte de um passado histórico e que jamais nos passaria pela cabeça que eles lhe dessem importância. E, foi engraçado vê-los a rebuscarem no armário os velhos discos de vinil e a fazer o ambiente da casa retroceder mais de vinte anos. Os velhinhos LPs e Singles voltaram a ter voz... 

Mas, não ficou por aí. Vieram juntos e sorrateiros com um ar cúmplice, até à sala e mandaram-nos sentar. Juntos, no mesmo sofá. Com um ar entristecido, viraram-se para nós, pais e estenderam-nos dois papéis pequeninos. A nossa falta de visão e de óculos, no momento, e o ar um pouco sério deles, não nos permitiu perceber o que era aquilo. 

-Sabem - explicavam - como não estamos muito abonados e queríamos oferecer-vos uma prenda boa, decidimos oferecer-vos... dois bilhetes de lotaria.

Ficámos aparvalhados porque não conseguiamos ver o que era mas não se parecia com bilhete de lotaria. Pusemos os óculos e lemos qualquer coisa como... "musée du Louvre" sem sequer nos apercebermos bem do que estava nas nossas mãos.

-Bem, - e a fisionomia deles mudava para o sorriso enquanto olhavam para nós - isso são dois bilhetes para o Museu do Louvre, para não perderem tempo na fila para os comprar. E..., para o irem visitar, está aqui, já marcado e tudo pago, uma viagem de cinco dias a Paris, com estadia em Hotel bem perto da Torre Eiffel, para poderem passear e gozarem os vinte e cinco anos que se aturam um ao outro...

Olhámo-nos incrédulos. Se não estivéssemos sentados, as pernas teriam ido abaixo. Não conseguimos reagir. Nem tão pouco perceber bem o que estavam a dizer. Só depois de ver os papéis, ali, escarrapachadinho, o horário dos voos, o hotel... aí uns minutos depois é que conseguimos reagir.

-Vamos, já está. É só enfiarem-se no avião e... passearem. Ver os museus, passear pelo Sena, visitar a Torre Eiffel... têm muito poucos dias para prepararem o que querem ver. E... nós tratamos da avó, fiquem descansados, não se preocupem. Tratamos de tudo...

O nosso Natal chegou muito mais cedo e com surpresas inesperadas, completamente inesperadas. Jamais me passaria pela cabeça que fossem fazer-nos uma surpresa destas.

Agora, neste momento, ainda não estou bem refeito desta surpresa. Parece-me que ainda não consigo interiorizar que se tenham esfalfado a poupar para nos oferecerem uma prenda de sonho. Como me arrependo de, por vezes, pôr em causa os gastos que faziam. Não trabalham, foi das magras mesadas que retiraram, pouco a pouco, o dinheiro para pagarem as despesas.

Isto são tesouros, sentir que os filhos que criámos querem o nosso bem estar.

Talvez que aquilo que mais nos surpreenda sejam as respostas que nos dão

-Mas, filhos, porque não pouparam então e compravam para vocês? Se já tinhamos falado em irem os dois ou com mais alguns amigos ou as namoradas, fazerem uma viagem pela Europa, aproveitarem quando ainda são novos e não têm responsabilidades...

-Porque vocês nunca vão a lado nenhum para nos poderem dar tudo. E, achámos que vocês, uma vez na vida, devem pensar em vocês e não apenas em nós...

Sem argumento, sem resposta, apenas... admiração, respeito e muito... muito amor.

Meus filhos, Meus tesouros... não sei que dizer... E, em breve, muito em breve, lá vamos nós. Com um nó no coração e outro na garganta, sem sabermos como um dia os poderemos recompensar por tão nobre acto, por tão grande esforço que fizeram, pela demonstração de carinho e de amor que tiveram.

-Bem - disse o mais velho enquanto ria com descaramento - eu sei que queriam ir a Nova York. Mas agora, só daqui a vinte e cinco anos, nas bodas de ouro. Temos de poupar muito mais...

 


publicado por Francisco às 01:04
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8 comentários:
De momentosdisparatados a 26 de Novembro de 2011 às 06:49
Eu que sou uma romântica e uma sentimental já aqui estou de lágrima no olho.
Realmente foi um gesto lindo com lindas palavras . Vão, divirtam-se, namorem e relaxem. Ah, não se esqueça da maquina fotografica!
Um abraço


De Francisco a 26 de Novembro de 2011 às 11:41
Já dormi, já acordei, já fui às compras com a mulher, apanhar ar e, mesmo assim, ainda não estou em mim. Incrédulo seria a expressão. Mas os papéis aqui na minha frente não deixam margem para dúvidas, não foi sonho.
Eu sou um sentimentalão, de lágrima fácil e, se penso que quase sempre tenho resposta para tudo, desta vez não consigo ter palavras para eles. Enfim, como disse, são os filhos que qualquer pai e mãe sonha ter, sem deixarem de ser gente jovem e que gosta de viver. Mas, sempre prestáveis e disponíveis.
A máquina vai, claro, até porque foi logo das primeiras exigências do filho mais novo: fotografias, fotografias... muitas.
Vamos agora sim, realizar um dos nossos sonhos, sempre adiado por razões várias mas, desta vez sem direito a desculpas. Eles trataram disso.


De sentaqui a 26 de Novembro de 2011 às 15:40
Caramba...agora é que fiquei emocionada a sério
Não há muito a dizer, apenas felicitar-vos pelos filhos com que foram abençoados.

Agora falando de Paris:
Há alguns anos atrás fui lá com uma amiga durante 4 dias, não parámos e vimos tudo o que foi possível. Combinámos correr no Louvre para ficar apenas com uma ideia, porque senão não víamos mais nada.
O ano passado voltei lá de novo, desta vez com amigos que estavam e estiveram lá. Aí a coisa mudou, a noite foi bem explorada e há espectáculos de sonho.
Permita-me que lembre de não deixar de visitar Notre Dâme, Subir ao Arco do Triunfo, à torre Eiffel, e se possível visitar o museu d`Orsay, pequenino, acolhedor e lindo....ah e não esquecer um passeio romântico no bateaux mouche.
Dizem que o metro de Paris é confuso, curiosamente, eu que sou uma despistada consegui desenvencilhar-me na perfeição e é o melhor meio de transporte.
Bom e tenho que me calar, o resto vou esperar para ver.

Abraço

Ps. Talvez haja em breve haja uma surpresa no meu blog Existe um Olhar


De Francisco a 26 de Novembro de 2011 às 16:01
Eu ainda não consigo estar bem em mim. Esperava tudo menos que eles andassem durante um ano a antecipar isto, completamente no segredo dos Deuses.
A ordem é aproveitar ao máximo. E já estamos a planear as voltas possíveis neste período de tempo. Felizmente os filhos, mais viajados, vão dando uma ajuda.
E, agora que me deixou em "pulgas", porque adoro surpresas, fico na expectativa do que vai acontecer no Existe um Olhar.
Um grande, grande mesmo,
Abraço


De blogando-me1 a 27 de Novembro de 2011 às 10:55
Quando comecei a ler achei graça ao relato, talvez pela história do vinil, do gira discos.... velhas lembranças. Agora ainda meio remelosa, as lágrimas caem, por tão nobre gesto. Uns filhos que quaisquer pais gostariam de ter. Parabéns aos pais pela educação transmitida. Quanto ao resto, aproveitem, aproveitem, aproveitem que 5 dias passam rápido e Paris temm muito para ver.

Bjs fofos


De Francisco a 27 de Novembro de 2011 às 19:54
Obrigado pela sua visita e pelo resto. Como pais, sempre nos esforçámos por os educar quer no respeito pelos outros quer proporcionando-lhes a melhor aprendizagem possível. Creio que a maior recompensa que um pai pode ter é constatar que eles reconhecem esse esforço e são altruistas suficientes para não pensarem apenas neles.
Quanto ao resto... ai vamos aproveitar, vamos. O tempo voa e não podemos ver tudo. Vamos então, escolher o possível...
Volte sempre e, obrigado, mais uma vez.
Um abraço


De blogando-me1 a 27 de Novembro de 2011 às 20:46
A minha avó dizia muitas vezes "se forem bons pais, terão ainda melhores filhos". Tento dar aos meus filhos os valores que me foram passados a mim, a amizade, a educação, a partilha e até ao dia de hoje, graças a Deus não me arrependo. Um beijinho aos filhos que sabem dar valor aos pais.

Bjs fofos


De Francisco a 27 de Novembro de 2011 às 23:27
Nem sempre isso acontece. Tal como há pais que não merecem os filhos que têm, também há filhos que não merecem os pais que têm. Porém, muitos como eu, tentam dar o melhor a seus filhos, pautando-se por um rigor de responsabilidade e educação. E, há filhos que reconhecem essa educação. Eu não mandaria apenas um beijo aos filhos que sabem dar valor aos pais. Eu diria que esses filhos serão os verdadeiros Homens e Mulheres de amanhã, capazes de transmitir valores, de valorizar a sociedade e de dar valor não só aos seus ascendentes como aos seus descendentes. Para mim, esses filhos, sejam filhos de quem forem, são dignos de todo o respeito e merecedores de serem apoiados e considerados como os verdadeiros perpetuadores da sociedade civilizada.
Um bem hajam para esses filhos,...
Um abraço para si.


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